Entrevista

Rede de Transportes é o esqueleto que dá forma ao uso da cidade

Rede de Transportes

Rede de Transportes é o esqueleto que dá forma ao uso da cidade

O grande desafio é assegurar que o setor dos transportes acompanha as necessidades de mobilidade dos novos usos da cidade.
São palavras de Cristina Pimentel, Vereadora dos Transportes, da Fiscalização e da Proteção Civil, da Câmara Municipal do Porto.

O investimento da autarquia no sector dos transportes é bem visível. Quais têm sido as prioridades? Onde estão os maiores desafios?
A grande prioridade de investimento no sector tem sido o transporte público, seja pelo serviço, como a intermunicipalização da STCP, seja pela infraestrutura como por exemplo a construção do Terminal Intermodal de Campanhã, ou pelo aumento da quota de utilização do transporte público com iniciativas como a gratuitidade até aos 18 anos. Além disso, também a melhoria das condições dos arruamentos tem sido uma prioridade, procurando assegurar a máxima acessibilidade a todos os cidadãos, maior conforto para o peão, maior partilha dos arruamentos com os modos suaves criando ciclovias sempre que possível e ordenamento do estacionamento nos seus vários usos, seja estacionamento de rotação seja para apoio a atividades logísticas. O grande desafio é assegurar que o setor dos transportes acompanha as necessidades de mobilidade dos novos usos da cidade. O aumento de atratividade da cidade e das atividades económicas criam uma maior pressão em todo o sistema de transportes, havendo não só um aumento generalizado da procura, como novos tipos de procura, compatibilizar tudo isto num espaço geográfico finito é um grande desafio. No transporte público em específico além da constante necessidade de adaptação da oferta aos novos usos da cidade temos ainda toda a necessidade de articulação entre a STCP e a restante rede de transportes públicos metropolitana de forma a garantir aos passageiros a melhor frequência e conforto na viagem, o que são enormes desafios. Temos muitos autocarros a circular na nossa cidade, e esse número foi crescente nestes 8 anos, tem sido muito difícil acomodá-los todos na cidade e organizá-los pelos espaços existentes e daí a necessidade que sentidos de ter uma rede de interfaces onde o Terminal de Campanhã e o Interface da Asprela, brevemente concluídos são fulcrais para a descarbonização do centro da cidade.

Por um lado queremos inovar e proporcionar aos cidadãos todo um leque de novas experiências e novas formas de se deslocarem, por outro temos que garantir o “normal” funcionamento da cidade com tudo aquilo que já antes existia

Por outro lado, o florescer de novos negócios relacionados com a mobilidade tais como os serviços de partilha, ou os vários tipos de transporte de caracter turístico criam também desafios regulamentares para quem gere a cidade. Se por um lado queremos inovar e proporcionar aos cidadãos todo um leque de novas experiências e novas formas de se deslocarem, por outro temos que garantir o “normal” funcionamento da cidade com tudo aquilo que já antes existia e sem “incomodar” os moradores tendo optado sempre por regular os usos da cidade e deixar que o mercado evolua de forma regrada proporcionando novas formas de mobilidade aos cidadãos. Neste momento um novo desafio surge, relacionado com o aumento exponencial do e-commerce (muito fruto do contexto atual) e alterações a nível da logística, estando o Município a adaptar-se e brevemente lançará o seu plano de logística urbana.

A Cristina Pimentel, é Vereadora desde 2013, na sua opinião onde aconteceram as grandes transformações? O que mudou nestes anos?
Em 8 anos muita coisa mudou como seria de esperar. Há atualmente uma maior consciencialização ambiental e por um lado isso pressiona-nos e por outro dá-nos a oportunidade de tornar a cidade mais voltada para os modos suaves, transporte publico e reduzir as emissões de GEE. Um tema que ainda não referi e que teve enorme relevância na transformação da cidade é o estacionamento. De facto este é também um vector importante na estratégia do Município, ao ter estacionamento pago na rua forçando a rotação e privilegiando os moradores com uma avença conseguimos libertar espaço público para outros usos, como pontos de serviços de partilha, lugares para logística, ciclovias, garantir lugar aos moradores, enquanto os automóveis deixaram de permanecer estacionados na rua longos períodos para passar a fazê-lo em parques, hoje todos dizem que é possível ir à Baixa e estacionar para resolver qualquer questão, quando isso era impensável. A cidade ganhou mais viagens e mais modos de transporte, em 8 anos vimos surgir os transportes turísticos em Hop-on/Hop-off, os chamados tuktuk, as trotinetas, as bicicletas, os carros elétricos com os necessários postos de carregamento, escadas mecânicas para apoio às deslocações com grandes diferenças de cota, e no Porto tudo isto foi surgindo de forma faseada e regulada procurando sempre proteger o munícipe de usos indevidos do espaço. Este é um processo evolutivo é certo mas julgo que podemos dizer que até agora temos conseguido um bom equilíbrio. A STCP passou a ser intermunicipal e isso é uma grande transformação, agora é possível ter a decisão junto do utilizador e brevemente será possível ver os frutos dessa proximidade.

Tornar a cidade mais voltada para os modos suaves, transporte publico e reduzir as emissões de GEE

O Porto é uma cidade fantástica, de que forma é que os transportes, sejam públicos ou não, podem servir a cidade?
Como em qualquer cidade a rede de transportes, e quando falo em rede falo no todo, transporte público, modos suaves, transporte individual, é um pouco o esqueleto da cidade, ela estrutura de certa forma os usos da cidade. Vejamos o exemplo de Campanhã, uma zona em ebulição, será a nova cidade, e para tal o Terminal de Campanhã é uma das grandes ancoras desse desenvolvimento, é estrutural. Ao pensarmos nos transportes pensamos sempre nas várias componentes, estacionamento, transporte público, ciclovias, passeios e no modo como todos se articulam e servem uma determinada zona da cidade e os usos dessa zona, sejam moradores, ou por exemplo serviços com necessidades logísticas. Nunca nos podemos esquecer é que a cidade é evolutiva e parte sempre de algo já desenhado, sendo mais desafiante ainda quando falamos de uma cidade como o Porto e com um património histórico como o que tem, isto sim é o grande desafio, refazer o esqueleto da cidade diariamente para acompanhar o desenvolvimento dos órgãos (moradores, serviços, comércio, etc) deste corpo vivo que é o Porto.

Como é o seu dia-a-dia? É uma função mais política ou está na “operação?
Para além do pelouro dos transportes sou responsável pelos Pelouros da Fiscalização e da Proteção Civil o que no contexto do contexto epidemiológico que vivemos no último ano nos obrigou a equilibrar as opções políticas e de estratégia de cidade com as necessidades constantes e prementes de darmos respostas imediatas aos problemas que surgiam no dia-a-dia com um impacto muito direto na vida das pessoas. Os transportes também foram obrigados a rápidas adaptações e transformações que a vertente das operações, que acaba por ser uma dimensão muito relevante da nossa atividade diária, veio facilitar.

A cidade é evolutiva e parte sempre de algo já desenhado, sendo mais desafiante ainda quando falamos de uma cidade como o Porto e com um património histórico como o que tem, isto sim é o grande desafio, refazer o esqueleto da cidade

A Cristina Pimentel vem do mundo das artes, é licenciada em Pintura e doutorada em História e Teoria da Arte, o que a inspira enquanto vereadora?
Embora licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes do Porto a minha formação e interesse incidiu posteriormente na História e Teoria da Arte, mais concretamente na área da museologia tendo exercido toda a minha atividade profissional relacionada com esta dimensão da minha formação superior. A minha área de especialização profissional esteve sempre relacionada com o setor dos transportes na sua componente histórica e fundamentalmente museológica que é indissociável das pessoas como parte integrante das histórias e memórias deste setor continuando estas desde sempre a constituir a minha principal inspiração.